Vivemos tempos em que os diagnósticos de TDAH crescem em ritmo alarmante. Em consultórios, escolas e redes sociais, o termo passou a ser usado com uma frequência que não condiz com a complexidade que o transtorno de fato exige. O que era para ser um processo cuidadoso de investigação clínica virou, muitas vezes, uma conclusão apressada — baseada apenas em comportamentos visíveis ou em queixas isoladas, desconsiderando a história de vida, o contexto e os fatores biopsicossociais do indivíduo.
É exatamente sobre isso que alertou o psiquiatra Allen Frances, renomado coordenador da equipe que elaborou o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Nas palavras dele, “receitamos remédios psiquiátricos a gente saudável”. Ele não nega a existência do TDAH. O que denuncia é o uso superficial, exagerado e descontextualizado dos critérios diagnósticos — o que chamou de “epidemia de diagnósticos”.
No livro “Voltando ao Normal”, Allen Frances critica o modo como a medicalização tem sido usada como resposta rápida para sentimentos como angústia, tristeza, medo e falta de atenção — muitas vezes ligados a experiências reais da vida, e não necessariamente a transtornos psiquiátricos.
E o que isso tem a ver com a forma como cuidamos da saúde? TUDO.
Porque, quando um diagnóstico é feito sem critério, o tratamento também será inadequado. E, assim, instala-se um ciclo perigoso: o paciente toma uma medicação sem que a real causa do sofrimento seja investigada — e muitas vezes, essa causa está diretamente ligada ao estilo de vida, ao contexto emocional, à sobrecarga, ao sono prejudicado, ao uso excessivo de telas, à má alimentação, à falta de sol, de movimento e de vínculo humano.
Keith Conners, psicólogo americano que dedicou mais de 50 anos à pesquisa sobre TDAH, foi direto ao ponto:
“Os diagnósticos errados de TDAH são um desastre nacional de proporções perigosas.”
Conners foi pioneiro na criação de escalas para avaliação do transtorno. E mesmo ele, defensor do diagnóstico responsável, fez um alerta duro: estamos rotulando crianças que apenas precisam de apoio, compreensão e estrutura — não de medicamentos.
Esse comportamento de acomodação — tanto de alguns profissionais quanto de pacientes — é silenciosamente destrutivo.
O profissional se acomoda quando acredita que já sabe tudo e não investiga a fundo.
O paciente, por sua vez, prefere muitas vezes o alívio imediato de um comprimido à construção de uma mudança profunda e gradual — mas real.
Essa é uma escolha, e precisamos estar conscientes de suas consequências.
Estudos comprovam que o uso prolongado e indiscriminado de psicoestimulantes pode causar dependência, distúrbios do sono, ansiedade, taquicardia e até depressão. E o mais grave: quando usados sem real necessidade, podem agravar os sintomas ou ocultar os sinais de outras condições que seguem sem tratamento. Segundo uma revisão publicada no Journal of Clinical Psychiatry (2017), “o uso de medicamentos para TDAH em pessoas sem o transtorno diagnosticado com critérios robustos, pode alterar o funcionamento do sistema dopaminérgico de forma crônica, afetando motivação, prazer e capacidade de foco.
A ciência — e até a lógica mais elementar — mostram que fatores externos podem levar a comportamentos diagnosticados como TDAH, quando, na realidade, são respostas adaptativas ao ambiente.”
É o corpo e a mente tentando se ajustar a um mundo que exige demais, com pouco espaço para pausa, presença e conexão. Não raro, crianças e adultos com dificuldades de foco, impulsividade ou agitação estão apenas tentando sobreviver a contextos desafiadores — e o comportamento é apenas o reflexo do que está por trás.
Não é sobre demonizar os medicamentos. Eles podem, sim, ser necessários — mas nunca sozinhos.
Quando bem indicados, devem ser usados por um período determinado, com acompanhamento psiquiátrico contínuo e com psicoterapia associada, preferencialmente com profissionais que compreendam a complexidade do funcionamento humano de forma integrada.
A verdade é que não existe milagre. Existe um processo. E esse processo exige autoconsciência, autorresponsabilidade, disciplina, persistência e acompanhamento adequado.
Explorar os sintomas não é sobre confirmar um rótulo — é sobre compreender o que realmente está acontecendo. O que na minha história de vida, na minha genética, no estilo atual de vida, na rotina, na alimentação, nas relações, no ambiente de trabalho ou familiar está contribuindo para a desorganização mental, para o cansaço extremo, para a falta de foco, para a ansiedade constante?
A mente humana é complexa, e o comportamento nunca é obra do acaso.
Há múltiplos fatores que podem gerar déficits cognitivos e emocionais. O psiquiatra Daniel Amen, em seus estudos com neuroimagem, demonstrou que diferentes padrões de funcionamento cerebral associados ao TDAH podem ser influenciados por dieta inflamatória, privação de sono, estresse crônico e desequilíbrios hormonais. Ou seja, o cérebro é moldado pelas nossas escolhas — e também pelo que negligenciamos.
Mudar para melhorar é um processo, que exige sair do automático. Exige consciência para fazer perguntas que precisam de respostas verdadeiras:
– Eu realmente quero melhorar ou quero apenas me anestesiar?
– Estou disposto(a) a investigar com profundidade o que está por trás da minha dor?
A medicalização da vida está nos afastando de um cuidado verdadeiro.
Está nos fazendo acreditar que não temos tempo para sentir, refletir, mudar — e que a única saída é calar os sintomas com comprimidos.
Quando escolhemos trilhar um caminho de presença, consciência e transformação, colhemos resultados mais duradouros — e genuinamente nossos.
A saúde verdadeira nasce da construção diária, feita de escolhas reais. Com persistência e sentido.
Se você sentiu que esse texto conversou com algo aí dentro, saiba que estou por aqui — com escuta, leveza e presença, te convido para um momento de conversa. Quem sabe, esse seja o primeiro passo para um novo olhar sobre você.





